ELE

Cultura

Por Héctor Pellizzi

A partir do vento, era que Ele aparecia entre as rachaduras das paredes amarelas castigadas pelo tempo e pela areia das ruas que dançava em redemoinhos.
Ele aparecia à tarde, quando o sol batia mais forte e desafiava a cidade deserta que, em silêncio, debatia-se com seus próprios fantasmas.
O vento não parava, era uma constante, parte da paisagem e obrigava as mulheres a cobrir seus cabelos com lenços coloridos. Os homens andavam com os olhos vermelhos.
Ele vinha nos redemoinhos, trazia a sede dos açudes secos e uma lembrança de leito de rio antigo.
Por baixo das pontes de madeiras podres, as ossadas reluziam com a lua.
Ele era o próprio sofrimento, andava entre pés rachados nascidos nos embates com a roça, entrava nos fogareiros e se misturava com as panelas miseráveis. Não podia controlar a dor.
Ele vinha a partir do vento e aparecia nas rachaduras das paredes amarelas.

Del libro: VERSO Y PROSA
Diagramação: Samuca Santos
Fotografía: Jorge Verdi
Edição Independente – 2001

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